Era noite de verão, daquelas que a gente não consegue dormir. Nem pelado. Você começa acreditar que até seus órgãos estão derretendo. De todo, era esta a situação que se configurava: uma cama com os lençóis molhados de suor, meu corpo estendido nela, a janela aberta, um abajur com um bojo velho e sujo e um pet de água morna do lado.
Eu não me sentia absolutamente sujo, embora as condições do lugar me contradissessem. Eu não me sentia mal, embora as minhas divagações acerca de mim mesmo me contradissessem.
O vento era tão fraco que não chegava a me refrescar, e por vezes pensei em sair andando pelado pelo meio da rua, mas minha criação cristã e minha incapacidade de rompimento com certos valores dispensáveis me fizeram hesitar. O máximo que fiz foi derramar um pouco da água na minha testa e no meio peito, e ficar brincando com a água empoçada neste.
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- O que você faria se não tivesse pra onde ir?
- O que eu faria?
- É, e eu não falava do não ter praonde ir que falam nas novelas das oito quando um personagem toma um pé.
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Embora eu acreditasse ser uma pessoa distinta, de concepções sobrias e conduta indesejável, o sabor das coisas em geral estavam me enojando.
Eu me sentia cansado e velho. Eu me sentia um velho de vinte anos. E quanto mais eu pensava, mais eu detestava. E quanto mais eu detestava, mais eu me sentia patético. E quanto mais eu me sentia patético, mais eu me mantinha patético.
Eu estava a duas horas deitado naquela cama pensando nas coisas que poderia fazer se levantasse dela, mas de fato, nada me faria levantar, nada fazia sentido o bastante para mim levantar.
Talvez mulheres.
Pra mim são como água. Eu preciso pra viver, mas ela não precisa de mim. Eu sempre fui tão sincero com elas como sou com a água que bebo. Então, eu não mantenho nenhum tipo de relacionamento exceto o selvagem. Mesmo porque eu me sentiria ainda mais patético. E quanto mais patético eu me sinto, mais eu fico.
Levantei e sai andando pela rua. Pelado. Eram cinco da tarde. As senhoras começaram a gritar, claro que não é todo dia que se vê um jovem pelado na rua, mas elas deviam dar graças a Deus por estarem me vendo. Eu não era nem um saradão, mas tinha meu charme.
Na delegacia, depois de me ficharem, fizeram perguntas. Eu, no auge da minha humildade, respondi todas com muito esmero. Fui premiado com uma noite na cela da delegacia.
Foi ardido.

6 comments
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31 Março, 2008 às 4:23 am
Franz Kafka
Oi, este é um comentário.
Para fazer um comentário é necessário ser alfabetizado e capaz de escrever uma frase qualquer.
31 Março, 2008 às 7:49 pm
Broto
Esse foi o comentário mais inteligente que eu consegui fazer.
Até porque a coloração do meu cabelo não permite grandes extensões de
vocabulário e conhecimentos suficientes para compreender o que é um comentário inteligente
que elogie o texto do blog à altura que ele merece.
Beijos.
1 Abril, 2008 às 1:12 am
LypeVZ
Cool, blog maneiro sô
…numa noite destas, o negócio é estender uma rede na varanda, mirar o ventilador pro saco do kra, pegar uma viola e canta olhando pra lua….hehehe
mas tá massa Sancho
força ae!!!
2 Abril, 2008 às 3:41 am
Adriano
O paragrafo sobre as mulheres eh muito bom.. euahu
belo texto tunico!!!
4 Abril, 2008 às 12:28 am
Cati
pelo menos tinha AC na tua cela? auehauhauehaue
(inspiração insuficiente pra aprofundar o comentário)
4 Abril, 2008 às 12:30 am
Cati
esqueci de dizer..
é um bom texto, crônica..
como quer que tenhas classificado, muita criatividade da tua parte tonico.