Algum dia, eu vou olhar para o telefone, olhar para a parede fria e tentar imaginar aonde estará o meu amigo Charles (pois já não vou mais ter intimidade para chamá-lo de Xibo). Tentarei buscar nas minhas mais profundas memórias todas as aventuras, indiadas e tragos que me meti junto com ele. Lembrarei, saudosista, do seu rosto gordo, barbudo, com madeixas de cabelo oleosos caindo pela testa.

O boné sujo, que eu lhe dei.

A sua voz de monstro.

Ligarei, nostálgico, já com os olhos cheios de lágrima e escutarei aquele velho amigo atender:

- Alô?
- Alô, Charles? É o Tony, lembra?
- Ah, é tu gordo… tá loco!
- Tá tudo bem cara? Tá sem dá notícias…
- Não, não, tá tudo bem… Tô tomando um samba com uns amigos…
- Opa! Então fez novas amizades. Que bom! Quem são eles?
- Ah, tem vários: o Molinete, o Pica-pau, o Nézim, o João da Porca…
- Mas quem são esses?
- Há, uns parcero ai que eu conheci aqui no trabalho. São meus subordinados.

Desligarei o telefone, e nunca mais retornarei. Xibo encontrara seu caminho.

* Xibo ou Charles é um grande amigo meu de Agudo, que vai se mudar para Foz do Iguaçu onde trabalhará num presídio.